A partir da experiência do cinema, estudantes da Licenciatura em Educomunicação foram desafiados a produzir textos coletivos sobre filmes que dialogam com o universo da Comunicação/Educação. A proposta é reunir diferentes percepções sobre um mesmo filme e construir coletivamente um ensaio. Os resultados do trabalho serão publicados por aqui.
Hoje, temos o texto de Anna Broggi, Jefferson Onoe Ganev e Mariana Pereira sobre o filme ‘Entre os Muros da Escola’
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Por Anna Broggi, Jefferson Onoe Ganev e Mariana Pereira
Se você tem mais de 20 anos e se seu contato com a escola pública só ocorreu em sua época escolar, é bem provável que este filme lhe seja surpreendente. Se você acredita que a Educação está ruim em nosso país e culpa as autoridades, os professores e até mesmo a nova geração de alunos que anualmente preenche as salas de aulas, este filme pode te levar à reflexão e à constatação de que existe um problema um pouco mais complexo e delicado: o método de ensino. E não se trata de um problema apenas em nossas escolas, é um problema bastante comum pelo mundo.
Entre os muros das escolas há uma súplica velada por atenção, reflexão e ação. Entre os Muros da Escola (Entre les murs) é um filme dirigido por Laurent Cantent, com gravações realizadas em 2008, de origem francesa, baseado no livro homônimo de François Bégaudeau. Todo o filme se passa nos ambientes de uma escola do subúrbio de Paris e os atores que dele participaram, desde os alunos até os profissionais encarregados pelos afazeres que a mantém, são representantes de seus próprios papéis. A grande maioria, inclusive, utiliza seus nomes e características reais para a identificação de seus personagens.
Para compreender a essência retratada neste filme e nas rotinas das escolas públicas francesas, inicialmente, é preciso desconstruirmos a imagem que temos de que os estudos educacionais estão restritos a um espaço físico como o da escola ou da própria sala de aula. Eles transpõem estes espaços e refletem a vida extramuros de seus integrantes – alunos e professores. Além disso, atualmente, é necessário direcionarmos nosso olhar a uma França imigrante, isto é, compreendida por indivíduos
oriundos de diferentes localidades, imigrantes legais ou ilegais, de países da própria União Europeia, ou ainda de antigas colonizações francesas como o Reino de Marrocos, Argélia e a República de Mali, ou mesmo do Caribe e da Ásia. Dada a esta expressiva diversidade, não é de surpreender que ocorram choques de culturas, hábitos, religiões, crenças e valores junto à formação destes alunos.
No filme, François Marin (François Bégaudeau) tem sua rotina de professor retratada de modo cronológico, desde sua apresentação aos demais colegas professores até o término do ano letivo e, é durante o ano letivo que a narrativa acontece.
É possível encontrarmos indícios de uma estrutura fragilizada de ensino logo na reunião de professores, período que antecede o início das aulas. Neste momento, os professores do ano anterior apresentam os alunos para o professor que assumirá a turma. Esta apresentação resume-se a bom e mau comportamento – o aluno é nivelado apenas por seu comportamento, isto é, pelo cumprimento ou descumprimento do regime disciplinar.
Marin é um professor de Francês de uma turma do oitavo ano (série que comporta alunos na faixa etária dos 14 e 15 anos) e que reúne esta variada gama de individualidades. Seus alunos são jovens e, como todo jovem, encontram-se em um ritmo demasiado diferente àquele que percebemos na escola. Questionamentos e posturas agressivas, comportamentos impulsivos, enfrentamentos, indolência e
indiferença são algumas das características presentes em seus alunos. Alguns dos professores, seus colegas, lhe expõem suas angústias e suas insatisfações diante de turmas tão reativas às aulas. O desabafo explosivo do Professor Vincent é um exemplo desta insatisfação, em que ele acredita ser motivada pela falta de respeito e perspectiva de um futuro melhor.
Alguns alunos assumem papel importante nesta narrativa, como é o caso de Esmeralda, Khoumba, Souleymane, Boubacar, Wey e Carl. Esmeralda e Khoumba são duas adolescentes que afrontam Marin constantemente, ora questionando suas metodologias e práticas, ora se recusando a cumprir as atividades impostas. Possuem características ímpares e, questionadoras, muitas vezes levam Marin à reflexão ou a adotar práticas tão impulsivas quanto às delas. Não há vilões ou culpados nesta troca.
Há indivíduos comuns buscando o estabelecimento de uma comunicação em um ambiente que já não consegue mais supri-la. E, constatamos isso com a presença de Boubacar e Souleymane. O primeiro pode ser visto como aquele aluno que tumultua a aula, enquanto o segundo assume um papel mais complexo, adota uma postura ferina e indiferente ao que lhe ocorre no entorno – é um jovem buscando formar sua identidade, mas tido pelos modos convencionais, de maneira errada.
Os métodos adotados, a noção que se possui de disciplina e, muitas vezes, a falta de abertura a diálogos que insiram os alunos aos seus reais contextos sociais, tornam a sala de aula um campo minado e motivo para uma crescente indiferença a tudo que lhes é apresentado. Wey destoa, em parte, deste universo, pois se enquadra como um aluno aplicado e esforçado. Contudo, apresenta as dificuldades de adaptação ao idioma e aos hábitos franceses, visto tratar-se de um imigrante ilegal da China. Carl, um jovem caribenho, se reunirá à turma posteriormente, vindo transferido de outra escola. Não é apresentado o motivo, mas fica subentendido que sua transferência se deu por causa
de sua expulsão da antiga escola por mau comportamento.
Neste panorama, as aulas arrastam-se para os alunos e mostram-se um verdadeiro desafio para o professor que busca em seus alunos a mínima atenção e o respeito à sua posição. Embora tenha autonomia plena às aulas, Marin, é ainda um professor reprodutor da escola convencional buscando na linguagem uma porta para a comunicação efetiva; ele parece ignorar a pedagogia urbana que vem formando concomitantemente seus alunos e, por razões óbvias, é bem mais atraente e interessante do que as aulas.
Muitas vezes, é possível notar tentativas de adoção de novas práticas que retenham a atenção ou o interesse de seus alunos. Um exemplo disso é quando solicita um trabalho de autorretrato textual, em que os alunos devem retratar suas próprias informações, características e gostos. Souleymane não desenvolve o trabalho a contento, mas manifesta-o por meio de fotografias. Reconhecendo nesta ação uma linguagem, Marin busca convencê-lo a expressar-se como um pintor: por meio das fotografias, a fim de se autorretratar. Elogia o trabalho do aluno e expõe sua narrativa fotográfica à turma. Eis uma centelha de êxito para ambos.
Ainda que o professor François Marin se esforce para transmitir os conhecimentos que sua disciplina exige, pouco – ou nada – se percebe de evolução em sua turma. Os interesses são outros e, não incomum, é possível identificar situações tão parecidas dentro das salas de aulas brasileiras: alunos dormindo, usando o telefone celular, trocando bilhetinhos e conversando. Guardadas as devidas
especificidades das rotinas da escola francesa, notamos que este incômodo, esta insatisfação tanto do professor quanto do aluno, não é privilégio da educação brasileira, mas um mal-estar presente em salas de aula de todo o mundo contemporâneo.
Em uma sociedade cada vez mais tecnológica, digital, impositiva de ações criativas e inovadoras, manter um método analógico, arcaico e endurecido pela hierarquização de títulos ou rigores disciplinares distanciam cada vez mais as pontes dialógicas entre estes dois grupos. Marin, por exemplo, não é um docente despreparado, mesmo encontrando-se à beira de um abismo comunicacional, busca fortalecer os vínculos necessários para localizar os alunos valendo-se de uma linguagem unidirecional. Suas falas ao coletivo não são recebidas e são refutadas, enquanto que quando fala individualmente e buscando aspectos particulares de cada aluno, possui maior facilidade de se fazer compreendido e respeitado. Seus alunos estão ou buscando timidamente a construção de sua própria metodologia ou anulando seus reais potenciais. Esmeralda, por exemplo, há de surpreendê-lo no momento em que relata que sua leitura de interesse espontâneo fora A República, de Platão. E descreve, à sua maneira, a narrativa do diálogo socrático.
Identificar saberes ou os diferentes caminhos para ele é uma tarefa sutil e trabalhosa para o professor. Tanto que, para Marin, após um incidente desencadeado por uma fala impulsiva, o leva a tentar o convencimento de seus colegas à reversão da expulsão de um de seus alunos. O sentimento de impotência – talvez de culpa – o coloca no lugar de ser humano, sobretudo após Khoumba informá-lo da possibilidade deste aluno ser enviado de volta à aldeia maliana por seu pai, caso seja expulso.
Compreende que seu próprio ato foi incorreto, demonstra ares de arrependimento e sabe que havia no aluno grande potencial, mas já pouco pode fazer para evitar sua transferência, diante dos fatos ocorridos.
Ao término do ano, o professor questiona seus alunos sobre o que aprenderam das aulas. Cada um refere um gosto especial por determinado assunto ou disciplina. Até mesmo os que menos se comportaram trazem relatos interessantes sob suas próprias impressões. Encerrada a aula, Henriette se aproxima dele e, com ares de apreensão e desalento relata que sente que não aprendeu nada. Nada do que viu fez sentido ou compreende. Marin busca dissuadi-la desta impressão, dizendo-lhe que
aprendeu tanto quanto os outros, que ela não precisava se preocupar com isso, pois estava indo para o nono ano e teria tempo, nas férias, para pensar sobre tudo isso.
Fica a dúvida ao expectador se esta assertiva de François Marin reflete sua crença ou foi apenas uma negação diante de um fato, relatado com sinceridade. O ano se encerra com uma partida de futebol entre todos os professores e alunos e, ao longe, com a sala vazia e móveis em desalinho, ouvem-se os gritos quentes de torcida e comemoração, levando-nos a perceber que fora da sala de aula tudo parece mais divertido, amigável e unificador.
Sobre François Bégaudeau
François Marie Bégaudeau nasceu em 1971, na comuna francesa de Luçon, tendo vivido sua infância toda em Nantes, onde veio a realizar seus estudos em Letras Modernas. Filho de professores, viria a herdar o ofício posteriormente. Além de professor, é ainda escritor de ficção e drama, poeta, jornalista, artista plástico, roteirista, colunista e ator francês, conhecido por seu livro Entre les Murs, que ganharia uma versão para o cinema em 2008, no qual representa um professor.
Foi cantor e dialogista do grupo punk Zabriskie Point, de 1992 a 1999. Tendo se formado em Literatura, veio a lecionar na cidade de Dreux e, posteriormente, em 2003, publicou seu primeiro romance, o Jouer Juste. Em 2005, publica Dans la Diagonale e Un démocrate Mick Jagger 1960-1969 – relato romanceado sobre a vida do cantor britânico. No ano de 2006 publica Entre les murs, seu terceiro romance, inspirado em suas experiências como professor na Zona de Educação
Prioritária (ZEP), no Colégio Mozart, em Paris.
Em 2007, receberia o convite do diretor Laurent Cantet para levar às telas do cinema a adaptação de seu livro e, em sete semanas consecutivas, foram realizadas as filmagens com membros da própria instituição educacional e alunos, todos nãoatores. Auxiliou no roteiro de Entre les murs em colaboração com Laurent Cantet. O filme revelou-se um sucesso atraindo mais de 350 mil espectadores em seus cinco primeiros dias de exibição. Seu filme lhe renderia diversas indicações e prêmios, como foi quando recebeu a Palma de Ouro (Palme D’Or), no Festival de Cannes, em
2008 e, embora não tenha vencido, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, em 2009.
Desde então, colabora em colunas de jornais e revistas, história em quadrinhos, consultoria junto à Educação, programas televisivos, teatro e cinema e escreve seus livros.



