Dissertação de Fernanda Simplicio dos Santos analisa as experiências de Catarina Xavier, Eduarda Ferreira e Helena Ferreira na produção de conteúdos durante a pandemia

As redes sociais fazem parte da rotina de crianças e adolescentes e, para algumas delas, também se tornaram espaços de aprendizagem, produção de conhecimento e participação. Foi a partir desse cenário que a pesquisadora e colaboradora do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE), Fernanda Simplicio dos Santos, desenvolveu sua dissertação de mestrado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), ao investigar como o protagonismo infantojuvenil pode se manifestar por meio da produção de conteúdos digitais.
Intitulada “Aperte o play: a autoformação educomunicativa e os desafios do protagonismo infantojuvenil durante a pandemia”, a pesquisa foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM/USP), sob orientação do professor Dr. Claudemir Edson Viana, e aprovada em fevereiro de 2025.
Fernanda é jornalista formada pela Universidade Federal do Cariri (UFCA) e construiu sua trajetória acadêmica a partir do interesse pelas relações entre comunicação, educação, infância e juventude. Seu contato com a Educomunicação se fortaleceu durante a pandemia, quando participou como aluna ouvinte de uma disciplina da ECA-USP ministrada pelo professor Claudemir Viana. Foi também nesse período que conheceu os projetos CatMat e Pretinhas Leitoras e identificou nas experiências das jovens possibilidades de investigação dentro do campo da Educomunicação.
A pesquisa acompanhou as produções de Catarina Xavier, do perfil CatMat, e das irmãs Eduarda Ferreira e Helena Ferreira, responsáveis pelo Pretinhas Leitoras. São projetos desenvolvidos nas redes sociais e que dialogam diretamente com o público infantojuvenil e com a geração Z, trazendo outras possibilidades para pensar a relação entre comunicação, educação, produção de conteúdo e participação.
Catarina, Eduarda e Helena: protagonistas de suas próprias narrativas
Catarina, Eduarda e Helena são as três jovens que estão no centro da pesquisa. Catarina é responsável pelo CatMat, iniciativa que trabalha conteúdos relacionados à matemática e utiliza as plataformas digitais para transformar assuntos educacionais em materiais acessíveis e próximos do cotidiano de quem acompanha seus vídeos.

Já as irmãs Eduarda e Helena estão à frente do Pretinhas Leitoras, projeto que utiliza as redes sociais para falar sobre literatura, identidade, representatividade e questões relacionadas à população negra. A produção das meninas também aproxima a literatura de discussões sociais e culturais, construindo um espaço de compartilhamento de conhecimentos a partir de suas próprias experiências.

Embora os projetos tenham características diferentes, as três jovens têm em comum o uso das redes sociais como espaço de criação, aprendizagem e diálogo. A pesquisa analisou conteúdos publicados entre março de 2020 e março de 2022 e também contou com entrevistas com as produtoras para compreender suas experiências e as motivações presentes na criação dos materiais.
Para Fernanda, acompanhar essas experiências significou também acompanhar uma etapa importante do crescimento das próprias meninas.
“Trabalhei quase cinco anos em cima dessa temática, em um processo imersivo de consumo das informações geradas pelas três jovens. Acompanhei cada etapa do crescimento infantojuvenil, que elas passaram do final da infância para a adolescência, e consequentemente também acompanhei a maturidade do próprio conteúdo gerado por elas.”
Ao longo desse período, os projetos também passaram por transformações. A produção de conteúdos deixou de ser apenas uma maneira de ocupar as redes sociais e passou a revelar processos de aprendizagem, troca e construção de conhecimento.
Uma outra forma de olhar para a Educomunicação
A análise identificou a presença de diferentes Áreas de Intervenção da Educomunicação nas produções das jovens, com destaque para Gestão da Comunicação, Mediação Tecnológica na Educação, Pedagogia da Comunicação e Produção Midiática na Educação.

A presença dessas quatro áreas em mais de 80% dos vídeos analisados contribuiu para que a pesquisadora elaborasse um modelo de autoformação educomunicativa a partir das experiências observadas.
Nesse processo, a produção de conteúdo deixa de ser compreendida apenas como resultado final. Gravar, pesquisar, escolher um assunto, pensar na linguagem, editar e compartilhar também são etapas que possibilitam aprender.
A pesquisa aponta que esse aprendizado não acontece somente dentro da escola. As experiências pessoais, culturais e sociais das meninas também participam da construção dos conteúdos e contribuem para o desenvolvimento de uma autoformação que articula diferentes conhecimentos.
Para Fernanda, é importante observar que cada uma das jovens desenvolveu esse processo de maneira própria. Mesmo sem conhecer academicamente o conceito de Educomunicação, elas já compreendiam, na prática, que seus canais poderiam funcionar como espaços de produção e compartilhamento de conhecimento.
“Ao se falar da Educomunicação e das suas práticas a partir do protagonismo exercido pelas jovens, é importante ressaltar que cada processo aconteceu de forma individualizada. Na cabeça delas, mesmo sem entender etimologicamente ou de forma acadêmica ou estudantil, elas já sabiam que tinham o papel de gerar conhecimento a partir das próprias práticas e da relevância que os seus canais tinham para se tornarem impulsionadores de um conhecimento compartilhado, no qual elas aprendiam a partir da troca com os próprios espectadores.”
Esse protagonismo também aparece nas escolhas feitas pelas meninas e na maneira como se relacionam com seus públicos. A pesquisa mostra que Catarina, Eduarda e Helena se posicionam como agentes das próprias narrativas, sem deixar de lado suas culturas, origens e crenças.
Nesse sentido, CatMat e Pretinhas Leitoras apresentam experiências que ajudam a ampliar o olhar sobre a Educomunicação e sobre os espaços onde ela pode acontecer. As redes sociais, especialmente aquelas utilizadas cotidianamente pelas novas gerações, também podem se transformar em ambientes de aprendizagem, participação e produção coletiva de conhecimento.
A trajetória da própria Fernanda ajuda a explicar sua aproximação com esse tema. Ainda aos 12 anos, ela participou do projeto Minha Terra, produzindo materiais multimídia e utilizando recursos como áudio, vídeo, fotografia, redes sociais e blog para trabalhar com outros estudantes a temática do lixo eletrônico. Anos depois, já na pós-graduação, encontrou nas experiências de Catarina, Eduarda e Helena questões que dialogavam com sua própria história.
Ao final da pesquisa, Fernanda aponta que as experiências analisadas mostram a possibilidade de pensar a Educomunicação para além dos espaços tradicionalmente associados ao campo. As práticas desenvolvidas pelas jovens evidenciam como crianças e adolescentes podem assumir um papel ativo na comunicação, não apenas como público, mas também como produtores de conteúdo e conhecimento.
Mais do que registrar uma experiência vivida durante a pandemia, a pesquisa abre espaço para pensar o presente: o que muda quando crianças e jovens passam a ser reconhecidos como sujeitos capazes de produzir, compartilhar e transformar conhecimentos nas redes sociais?
